Criar um Site Grátis Fantástico
Uma Criatura (Nada) Silenciosa
Uma Criatura (Nada) Silenciosa

 

Com o lançamento dos CDs “Criaturas Silenciosas”, em parceria com Mano Ferreira, “Navalhas e Punhais”, parceria com César Ceará, “Maias e Cavalcantes”, parceria com Paulo Maia, e “Cancioneiro Geral”, com parcerias diversas, Marcelo Cavalcante consolida uma história ímpar na arte brasileira contemporânea.

Em ostracismo por vinte anos (um autoexílio artístico), construiu um conjunto de obra impressionante, contando com cento e poucos livros e mais de 2 mil composições, com várias parcerias, entre elas Ivinho, Paulo Maia, César Ceará e Mano Ferreira. Ainda, neste período, dedicou-se com afinco ao espaço universitário onde percorreu um labirinto multidisciplinar que engloba graduações (direito, ciências sociais, economia, filosofia) e pós-graduações (mestrado em engenharia e doutorado em saúde pública). Talvez o protótipo do ideal de intelectual orgânico preconizado por Antonio Gramsci. O espaço acadêmico e o espaço artístico formam para ele o contraponto entre as ideias ponderadas e científicas e as expressões arrebatadas, iracundas e surpreendentes da sua arte.

Agora, nestes tempos de “produção planejada do lixo cultural”, Marcelo Cavalcante irrompe com obras na contramão da indigência musical vigente, buscando o lugar das coisas na sua teimosia de sensibilizar pessoas.
A visão geral da obra, segundo suas palavras, “é mais que a ambição tola de alinhavar algumas músicas e almejar alguma forma de reconhecimento, quer seja sucesso retumbante na mídia ou algum prestígio interiorano e/ou de grupos. Mais que isso, é um projeto concebido para questionar alguns paradigmas vigentes”.
Na esteira destas “canções de fogo” fica o rastro áspero e cortante de poemas como “Quem são esses caras?” (é que o mundo se esqueceu / que o viver é coisa profunda / muito além da grana fácil / mais que coito, peitos e bundas), em que a pergunta monocórdica é: quem são esses guerreiros tão modernos?, ou, um outro que fala da imensa legião de “Criaturas Silenciosas” e busca empunhar as navalhas necessárias às cirurgias sociais em nossas hipocrisias cotidianas e corriqueiras, ou, ainda, os seus “Deuses Essenciais”, uma espécie de hino ecumênico às avessas.

“... sou mais visceral que as vísceras do Caetano Veloso”.

Elias Nogueira – Por que “Criaturas Silenciosas”?

Marcelo Cavalcante – Nos anos 70, o mundo, de uma forma geral, tinha utopias generosas e mesmo o capitalismo respeitava e temia isso. A riqueza não era exibida com essa desenvoltura que observamos na atualidade. Esse exibicionismo da riqueza e de vitórias materiais ultrapassa os limites do razoável e constitui-se numa obscenidade. Existia um certo pudor, uma desconfiança, uma possibilidade do erro, da injustiça e até mesmo do pecado. Hoje, com a hegemonia do cru liberalismo, a ideia de riqueza pessoal, a necessidade de vitória individual tornou-se um imperativo. As sociedades vivem, produzem e reproduzem os valores legitimados. O que incomoda é o profundo conformismo, a pasmaceira ideológica que nos envolve. Venderam para a sociedade em geral uma beberagem simbólica, um sonho esvaziado, enquanto fórmula da felicidade... A sociedade passa a acreditar que a felicidade reside no poder do dinheiro. Estes estereótipos são perigosos e contraditórios. Qualquer garoto, hoje em dia, acredita que para ser feliz, tem que ser um Ronaldinho e tem que ter uma Ferrari, ou ser um superstar. Evidentemente que, apenas algumas poucas pessoas serão as vitoriosas neste plano e a maioria absoluta continuará vivendo uma vida comum de simples mortal. Mesmo a esses poucos vitoriosos, a felicidade não está garantida. Ser feliz depende apenas de uma postura ante a realidade que está aí, a felicidade independe dos zeros numa conta bancária. Este modelo de felicidade, preconizado por uma visão consumista, está completamente equivocado e potencializa as contradições e a crise sociais.

E N – Ainda sobre a “questão social”, “Criaturas Silenciosas” busca recuperar a canção de protesto ou mesmo os ideais dos anos 70?
M C – O projeto do CD não tem esta pretensão até mesmo por não ter as tais condições objetivas. Com o estreitamento do mercado fonográfico, controlado de forma mercantil, quem tem as tais condições de recuperar com eficiência alguma coisa são os próprios controladores do mercado. É uma discussão que deve ser remetida para a esfera econômica. Acredito que os donos do mercado estão interessados em potencializar o lucro e não as manifestações culturais. A pretensão modesta de Criaturas Silenciosas é observar e criticar algumas posturas sociais. Modesta mesmo no sentido de que, muito provavelmente, não vamos ser escutados por um universo maior que mil pessoas. Como já disse, nas décadas de 60 e 70, o mundo, de uma forma geral, tinha utopias generosas. Vivemos tempos diferentes, mas não podemos ficar num eterno imobilismo cultural, reféns das nossas nostalgias. O lixo cultural que está aí, diuturna e ininterruptamente produzido, representa o ideal do lucro capitalista em detrimento das manifestações socialmente necessárias.

E N – As culturas (ou contraculturas) hippie e beat?
M C – As culturas são históricas. Ocorrem em determinados meios e circunstâncias. Talvez a contracultura das décadas de 60 e 70 possa ser considerada um cochilo da razão prática. Um tempo confuso em que as ideias estavam fora do lugar, no que se refere ao controle de corações e mentes. Talvez a contracultura tenha sido possível em função de um cochilo do poder e de sua incompetência na administração de controles sobre a sociedade. Por um momento, na história moderna, os dispositivos de causa eficiente (custo-benefício, etc.) entraram em pane e as grandes questões humanas ocuparam a cena de forma não mascarada. Paz e amor, justiça e igualdade... Evidentemente estas palavras não foram banidas do ideário hegemônico da atualidade. As palavras são fugidias. Quando falam de democracia, falam de quê? As palavras necessitam de ser preenchidas com os respectivos conteúdos da realidade. O que a ideologia faz é exatamente impor a ditadura das palavras que, nesse caso, para ter eficiência, necessitam estar esvaziadas.

E N – Em algumas faixas de Criaturas Silenciosas, por exemplo, em “Quem São Esses Caras?”, “Deuses Essenciais” e “Criaturas Silenciosas”, percebe-se uma marcante temática social. Isso indica um possível retorno à chamada “canção de protesto”?
M C – Todas as canções que fiz falam de questões sociais, pois meus olhos observam a fartura: fartura de miséria, de fome e de egoísmos. O social está sempre presente nas manifestações, mesmo e apesar de um ininterrupto e eficiente trabalho de jogá-lo para baixo do tapete. O que difere é o discurso, a abordagem. Toda manifestação artística, mesmo fútil, com temática frouxa e idiotizante, reflete um aspecto da sociedade. A questão do protesto é uma faceta ideológica. Aprendi que ser radical é ir à raiz do problema. Vivi uma época em que ser radical tinha uma certa neutralidade, era mesmo uma questão de coerência. Na atualidade, dos anos 80 até hoje, o que temos é uma nova definição de radicalidade. Esta redefinição nos informa que ser radical é uma coisa negativa, é ser sectário. Isto implica numa carga pejorativa, um estigma. A ideologia é isso: passamos quase trinta anos convivendo com a ideia “natural” de que o Estado devia intervir na economia. Hoje, escutamos exatamente o contrário: o “natural” é o Estado mínimo, fora da economia, de acordo com o figurino neoliberal. São questões que, no dia a dia, meus alunos perguntam e que, no espaço permitido por esta realidade construída, não encontro respostas consistentes. Mas posso buscar respostas em outras realidades porque sei que sei que a verdade é construída. Isso nos mostra que, além de coerentes, os discursos têm que ganhar, no embate das ideias, uma legitimidade e, consequentemente, uma hegemonia. Discursos são construídos e legitimados por aqueles que têm condições objetivas de realizar tal tarefa. Uma descrição da realidade, por mais detalhada que seja, será sempre uma descrição, uma aproximação. Nunca será a coisa descrita.

E N – Numa canção você fala de uma “alegria iracunda”. Você está se referindo a...?
M C – A esta realidade mesma que está sendo construída. Temos que ter clareza de algumas coisas perversas que estão sendo gestadas, executadas e legitimadas socialmente. A modernidade está apostando demasiadamente na “desmesura”. Os gregos dos tempos áureos – a filosofia clássica – abominavam a ideia de desmesura e propugnavam pelo equilíbrio. O modelo de felicidade, a “fórmula” de felicidade atual, muitas vezes tem promovido apenas o tédio. Pessoas “vitoriosas”, sob o figurino deste modelo, acabam ficando prisioneiras do tédio. É o deslimite. Daí, desse tédio equivocado, pode surgir uma alegria iracunda, uma falsa consciência de alegria. Entediado mas com a sensação quase infinita de poder, uma pessoa pode extrapolar a realidade e enveredar pelas trilhas da futilidade ou mesmo da perversidade despudorada. Esse processo está se apresentando de forma sutil, porém progressiva. Podemos observar pessoas perderem o pudor de algumas coisas básicas como divulgar para uma maioria de famintos excluídos, como vivem nababescamente em suas mansões, seus inúmeros carrões importados, suas ilhas paradisíacas... Isso é a ponta do iceberg, pois estas coisas materiais, em determinado momento, não mais satisfazem, acabam entediando. É como o viciado que necessita aumentar a dose da droga. Um imenso poder, ao lado da sensação de impunidade, tem levado algumas pessoas a extrapolar os limites do razoável. Talvez a alegria iracunda de que falo se explicite no fato de alguns jovens, sem problemas de subsistência, queimarem índios ou mendigos indefesos. Talvez estejam estampadas nas manchetes espetaculosas das tantas futilidades dos ídolos populares ou não. Em suma: ser fútil, frívolo ou leviano, num mundo de tantas iniquidades e exclusão social, num mundo de sangue, vísceras e fezes, num mundo que condena a maioria dos seres humanos ao sofrimento injustificado, é ser senhor e patrão de uma alegria iracunda.

E N – Mas isso é a história da humanidade!
M C – Não, não é. Esse aspecto é típico da modernidade e mais precisamente do triunfo recente do capitalismo. O pensador Lévy-Strauss afirmou, com muita propriedade, que a humanidade, em seu processo histórico, saiu da barbárie e caiu na decadência, sem conhecer a civilização. De certa forma, isso está ocorrendo, a despeito do exponencial progresso científico-tecnológico que o mundo está vivendo. Particularmente, consigo ser feliz com coisas absolutamente simplórias, muito das vezes com coisas extremamente desagradáveis sob o aspecto físico. Sou mais feliz, por exemplo, construindo com minhas próprias mãos, uma casa – que é um trabalho braçal cansativo – do que escrevendo uma tese de doutorado para ser avaliada por um público absolutamente entediado. A questão é: cumprimos rituais vazios que significam ascensão social ou buscamos, mesmo na simplicidade das coisas, um significado para a nossa existência? Essa razão prática levada às últimas consequências transforma-se em realismo cínico.

E N – No seu caso, como é conciliar arte e ciência?
M C – Nos tempos atuais, são duas coisas inconciliáveis. Leonardo da Vinci e tantos outros faziam arte e ciência indistintamente como se a arte fosse o prolongamento da ciência e vice-versa. A modernidade modificou, de forma radical, tanto uma quanto outra. Estou convicto – e escrevi sobre isso na tese de mestrado – que a ciência, a “big science”, nos desafia à mediocridade. A ciência moderna é muito ciosa de seus estatutos. Concordo com Thomas Kuhn e acho que fazer ciência nos dias de hoje, é submeter-se à mediocridade necessária, pois ela requer um deserto de criatividade cercado de paradigmas de causa eficiente por todos os lados. O processo científico é um paquiderme que funciona em função do descomunal tamanho que adquiriu, e prescinde de talentos ou genialidades. Por outro lado, a arte continua com os seus atributos fundamentais e o que não se enquadra nos pressupostos de inquietação e inesperado, pode ser deslocado para a esfera de uma coisa decadente, porém muito rentável, que é a “indústria cultural”. A grande frustração dos interesses mercantis reside na impossibilidade de conversão de lixo em arte. Isso, a tola alquimia capitalista, não conseguiu pelo fato de não se poder transforma arte em mercadoria. A ciência foi transformada em mercadoria e com grande êxito o capital a viabilizou como uma das mais rentáveis. Pesquisa, hoje em dia, é dinheiro grosso, é lucro. Com relação a arte, esse processo não pode ser efetivado. O máximo que os usurários conseguiram foi a criação de um subproduto degradado. Os mercadores “da alma e do espírito”, os produtores de mercadorias para o espírito, conseguem apenas fomentar uma confusão entre arte e indústria cultural. Tentam transformar verdadeiras nulidades em expressões artísticas. Isso tem muito a ver com uma modernidade que estabelece a existência humana sob cenários espetaculosos, como se a existência humana necessitasse ser equacionada necessariamente através do espetáculo.

E N – Não seria uma visão exageradamente pessimista da vida?
M C – Não vejo a perversidade como uma fatalidade da condição humana. Independentemente de otimismos ou pessimismos, o que podemos observar é uma decomposição das relações sociais. O individualismo está sendo levado a extremos, os interesses particulares perderam o recato e isso limita sobremaneira a possibilidade do desprendimento e da generosidade. Não devemos esquecer que atualmente as sociedades ditas evoluídas exercitam descaradamente o “realismo cínico”, e se ufanam dele. Ante tudo isso, é claro, não posso estar nas fileiras dos que estão otimisticamente procurando o cavalo.

E N – Afinal, o que seria arte e lixo cultural? Arte popular pode ser considerada uma concepção superior?
M C – Isso é interessante de ser avaliado. A arte tem várias concepções e todas podem exprimir sua essência, ou seja, a música clássica é uma concepção de arte, o que não quer dizer que tudo que se produz dentro de seu campo seja arte na acepção da palavra, pode ser lixo cultural, empulhação, kitsch. O mesmo ocorre com o samba, com a ópera, enfim, todas as concepções artísticas têm a faculdade de possibilitar grandes talentos ou enormes imbecilidades. O sucesso, a fama, a riqueza são atributos externos à arte. A maioria das vezes essas futilidades dependem muito mais de esquemas promocionais do que de conteúdo artístico das obras. Edgar Morin, com muita propriedade, já nos alertava para o sucesso que acontece pelos motivos errados, disse que “o trabalho mais desprezado pelo autor é, frequentemente, o que lhe dá melhor remuneração e dessa desmoralizante correlação nascem o cinismo, a agressividade ou a má consciência que se misturam à insatisfação profunda nascida da frustração artística ou intelectual”. No livro-tese, cujo título é bem elucidativo, “O Privilégio da Arte e a Arte do Privilégio”, procuro alertar sobre os perigos que encerram essa tentativa de lançar a arte num espaço de plena objetividade e controle. O lixo cultural, que produz o sucesso injustificado, representa um estelionato cultural na medida em que aliena a sociedade e alucina o seu produtor.

E N – Como você observa o atual panorama musical brasileiro?
M C – Perdemos a inocência que era necessária ao livre curso da arte popular e isso está embotando quase tudo de bom que poderíamos fazer. A música popular, a boa música, tem sofrido atentados predatórios por parte das grandes empresas e seus prepostos. Mesmo um simples produtor de grande gravadora sabe que necessita produzir mercadorias de grande aceitação. Necessita provar à empresa que o seu produto é capaz de ser um sucesso de vendas, mesmo sabendo que é um produto deteriorado. Essa é a lógica mesma do capital: produzir para um mercado indiferenciado e não para seres humanos. Isso estabelece uma mesmice, uma falta de criatividade e de diversidade cultural. Pode ocorrer, e geralmente é o que está acontecendo, de uma produção vender milhões de cópias e, ao mesmo tempo, prestar um desserviço à cultura e à sociedade. Não se pode mais continuar nesta lógica obtusa de que sucesso é sinônimo de qualidade. A propósito, lembro uma frase do saudoso Sérgio Porto, na qual ele afirmava que “fazer sucesso no Brasil é não ir ao Chacrinha” Parafraseando, podemos afirmar que fazer sucesso, é não participar de determinados esquemas que, consciente ou inconscientemente, idiotizam a sociedade.

E N – O que representa produzir um CD independente?
M C – Depende da perspectiva que se queira observar. Uma produção independente, um verdadeiro “feito em casa”, que foi uma concepção pioneira levada a efeito pelo Antônio Adolfo, sob aspectos empresariais e promocionais é inviável. Comercialmente é uma temeridade. Sob outro aspecto, essa aventura representa a felicidade de produzir e reproduzir uma obra isenta de injunções comerciais que condicionam e limitam uma determinada visão de mundo. Os marqueteiros de plantão sabem ou desconfiam que a massificação – numa sociedade de massa – não tem que ser necessariamente pela mediocracia, mas optam por isso por acharem que é o caminho mais fácil. Tanto “Criaturas Silenciosas” quanto os demais CDs têm a mesma estrutura. Participam do projeto excelentes músicos e nenhum astro. A minha modesta pretensão é de apenas sensibilizar pessoas com o que elas escutam, com a obra. A minha vida pessoal (o que faço, o que sou, como vivo, do que gosto, o que bebo, etc.), não deve ser motivo de especulações e muito menos de admiração. Nenhum ser humano merece esse endeusamento insano e programado. Grandes sábios questionaram a admiração de grandes homens e seus feitos. A admiração, no sentido de idolatria, está intimamente ligada a feitos excepcionais. Até essa noção estamos perdendo. Qualquer garoto minimamente articulado consegue compor e cantar essas bobagens de grupos de pagode, de axé, de funk, mas inexplicavelmente admira esses ídolos. Qualquer empregada doméstica, mesmo analfabeta, saberia contar uma novela de televisão. Como se pode admirar uma coisa banal e facilmente realizável? A mídia imprimiu na sociedade de massa uma espécie de “fome de ídolos” doentia. Essa necessidade de idolatria se estrutura apenas na satisfação dessa necessidade, independente de análises ou fundamentações. São os incontáveis ídolos vazios que pululam pelos espaços comunicacionais. São as celebridades que Mills nos retrata com profundo desprezo, uma vez que são fruto de “seleções cumulativas de opiniões e sentimentos específicos passam a constituir a atitude e as emoções pré-organizadas que modelam a opinião e a vida das pessoas”. É claro que existe uma desmedida exacerbação no uso indiscriminado e irresponsável da manipulação ideológica na legitimação de um processo, observado por Edgar Morin, onde “os padrões da vida endinheirada predominam, o homem com dinheiro, não importa a forma pela qual o tenha conseguido, acabará sendo respeitado”. Celebridades cujo único mérito foi adquirido por nascimento, casamento, parentesco, amizade e mesmo relações sexuais. Como posso admirar alguém sem nenhum predicado além da indicação inconsistente da mídia? Com efeito, esse processo foi transformado exitosamente num grande manancial de lucros, mas, por suas próprias características, deixa uma sensação desagradável de provisoriedade, logro e hipocrisia.

E N – Os custos de um CD independente são proibitivos?
M C – Fico com Fernando Pessoa, pois acredito que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Tem um equívoco que, de tanto ser repetido e praticado, ganhou foro de legitimidade. Essa coisa de artista ser uma pessoa especial e necessitar de amparo, de ajuda, mecenato etc. Lembro de uma entrevista de Magnus Enzensberger na qual ele consegue resumir um pouco desse mito. Ele observa que “ser um escritor e fazer a vida como escritor é extremamente precário. Eu costumava pensar: ‘por que diabos estão me alimentando?’ Muito estranhamente, não fui mandado para a prisão, até pagaram por meu trabalho! Essa foi a atitude com a qual comecei, e no fundo de minha mente sempre tive esquemas para ganhar a vida de outras maneiras se houvesse necessidade”. Desde muito cedo e de forma intuitiva, observo arte e profissão enquanto coisas distintas e mesmo antagônicas. Desde muito cedo paguei o preço de não pedir nada e dar o possível para o processo artístico que pode enriquecer a cultura do povo. Nesse sentido, posso dizer que a atitude de Enzensberger tem a estatura ética diametralmente oposta aos nossos ídolos babacas. Nesse sentido, posso afirmar que sou muito mais visceral que as vísceras do Caetano Veloso. Daí, os custos de produção são altos para um professor, mas não tão altos quanto os de um carro zero importado. Não tenho sequer uma bicicleta e sou espartano em relação a essas leviandades consumistas.

E N – Existe projeto para mais CDs? Seguem a mesma concepção dos anteriores?
M C – As linhas gerais serão as mesmas. Acredito que permanecerão como sempre, na medida em que minha determinada visão particular de mundo permaneça. “Criaturas Silenciosas” é fruto de uma parceria com Mano Ferreira, que é um grande talento. Já em “Maias e Cavalcantes” contém músicas muito antigas, concebidas em parceria com o Paulo Maia. No CD “Navalhas e Punhais”, todo em parceria com o César Ceará, estão as composições mais recentes. Já em “Cancioneiro Geral” ocorre uma variedade em parcerias antigas e novas e também parcerias com uma nova geração, como é o caso dos meus filhos (Cassiana, Clarisse e Marcelo), e o Fábio Maia, numa música que gosto muito, cujo título é “Noturnos”. Acho importante registrar as presenças de duas grandes intérpretes – Kátia Lemos e Carmélia Alves – que são remanescentes de gerações de cantoras que sabiam cantar e tinham voz. A verdade é que a gravação de um CD implica diferenciados talentos e não deve ser vista como propriedade de uma única pessoa. De certa forma, todos (arranjador, cantor, compositor, músicos, técnico de som, etc.) são parceiros no resultado final. Trata-se de uma construção coletiva e, nos erros e acertos, somos todos parceiros.

E N – Falando de produção independente. Não é muito comum alguém empreender esse tipo de projeto. A excessiva massificação aponta para caminhos exatamente opostos. Isso é teimosia, contracultura ou aposta de quem quer pagar pra ver?
M C – Um pouco de cada coisa ou “um nada de coisa cada”. Falando sério, isso não tem quase nada a ver com industrialização e mercantilização. Li em algum lugar que “o instinto do artesanato está presente em todas as culturas”, mas a impressão que tenho é que a sociedade tecnológica está atrofiando essa possibilidade necessária às culturas. Gosto de coisas manuais, de trabalhos que exigem algum talento e esforço corpóreos. Nasci com (ou desenvolvi) alguns predicados e um prazer de realizar essas coisas. Mas isso é apenas uma questão pessoal. O que me aborrece, particularmente, é uma espécie de inapetência dos nossos intelectuais para a realização de coisas práticas. Apresentam grande poder de criatividade, elaboram projetos magníficos, mas não têm capacidade ou vontade de implementá-los. Pode ser um vício adquirido da nossa tradição bacharelesca ou um complexo sistema de vaidades que transforma o trabalho manual em algo degradado, algo menor ou indigno. Conheço engenheiros incapazes de trocar uma lâmpada ou consertar uma torneira. Não sabem realmente realizar estas tarefas simples ou aceitaram a interposição de uma barreira psicológica? Tempos atrás, participei de uma grande pesquisa sobre Ciência & Tecnologia, para o CNPq e um dado ficou patenteado sobremaneira: a distância que separa teoria da prática é proporcional ao grau de desenvolvimento de um país. Este projeto envolveu inúmeros centros acadêmicos do Brasil, um sem número de pesquisadores e conseguiu reunir informações sobre C & T de quase todos os países do mundo. Essas informações foram analisadas, trabalhadas e redundaram em diversas publicações e em nenhuma atitude prática. O bonito exercício intelectual acadêmico foi realizado, mas sei que se jogou fora tempo e dinheiro de um povo que chafurda na miséria. Essa incompetência ou inapetência tem destruído grandes projetos e grandes ideias pelo fato de ficarem engavetados. Se as coisas se realizam na concretude mesma da existência, necessitamos enfrentar as dificuldades, mesmo porque são as dificuldades que nos desafiam e nos levam a superá-las.

E N – Como você administra as dificuldades de produzir um CD independente?
M C – Felizmente este processo não é uma coisa individual. Para as músicas, quase sempre, conto com os parceiros. Sob este aspecto sou uma pessoa gregária. Procuro incentivar, convencer, cativar e mesmo cooptar quem acho que tem talento. Aliás, acho o talento um enigma encantador que é estragado pela fama e pelo dinheiro fáceis. Quanto ao processo de produção artística e física do CD, contei com o imponderável, essa coisa de sorte... Temos muitos talentos morando em Teresópolis, pessoas buscando a tranquilidade que o Rio de Janeiro deixou de oferecer. Uma dessas pessoas é o Ronaldo Diamante, um músico excepcional que gosta de perder tempo fazendo uns arranjos geniais para as nossas bobagens. Paulo Midosi, Fausto Baptista, Lu Guarilha, Léo Castro, Borginhos, Zeca Winick, Edson Teixeira, Carlos Boy, Guinho Tavares e Guichard são excelentes músicos teresopolitanos que participaram ou participam do projeto que batizei de Cantigários. Tem, ainda, uma infinidade de grandes músicos profissionais que o Ronaldo, quando necessário, sequestra do Rio e de outros lugares. A questão do estúdio está equacionada acima das expectativas. Apesar de não ser nada excepcional quanto à parafernália tecnológica, conta com o fato de o engenheiro de som ser músico, um grande guitarrista. André Mello, apesar da pouca idade, é um exemplo de profissionalismo, talento e paciência. Todas essas pessoas têm emprestado talento e perseverança e com isso vamos superando os percalços. Dessa forma, o processo é desenvolvido com a facilidade que vem do fato de cada um administrar as próprias responsabilidades. Outro estúdio usado é do Edson Teixeira, baixista de primeira. Finalmente, o parceiro Márcio Pombo tem um estúdio onde iniciamos as gravações do CD “Alagaduns”. Usamos esporadicamente estúdios do Rio, quando necessitamos de determinados recursos tecnológicos.

E N – Estas condições são ideais?
M C – Tratando-se de realidade, não existe condição ideal. A própria existência é precária. Podemos falar de melhores ou piores condições. Sob este aspecto, acho interessante e desafiador esse processo de realizar industrialmente uma obra artística de forma independente. As dificuldades financeiras, tecnológicas e mesmo artísticas demandam soluções criativas e isso é estimulante. Acredito que as facilidades excessivas, quase sempre, proporcionam uma certa indiferença, uma espécie de embriaguez autossuficiente. Sucesso e narcisismo são faces da mesma moeda.

E N – Voltando ao CD “Criaturas Silenciosas”, a temática é propositadamente uma busca do conflito?
M C – Essa construção conceitual de que vivenciamos uma pós-modernidade tem um aspecto de retumbante vazio, na medida em que não necessita justificativas lógicas. Não podemos estruturar a “aldeia geral” através de um a-priori. A concretude das relações capitalistas não comporta por muito tempo uma superestrutura teleológica. Esta contradição não tem futuro... Num mundo em que a causa eficiente atinge a plenitude, o conflito não pode ser escamoteado. Os imperativos técnico-operacionais não comportam soluções mágicas ou religiosas. Uma ideia de sociologia compreensiva, que hoje tem sua tradução no “politicamente correto”, não apresenta instrumental teórico válido. Entender as sociedades modernas requer posturas intelectuais desconfortáveis e não essa ilusão de que estamos indo para um piquenique. O caminho para a percepção de um mundo de confrontos é o entendimento do conflito. “Criaturas Silenciosas” é bem menos importante que a postura. Lavradores, pedreiros, faxineiros, desempregados e mesmo intelectuais, podem interferir no rumo desse barco através de suas posturas, suas concepções de mundo e não apenas dos seus trabalhos factuais. Repito que ser feliz depende apenas de uma postura ante a realidade que está aí, a felicidade independe dos zeros numa conta bancária.

E N – E o segundo CD, Navalhas e Punhais?
M C – A concepção é a mesma, pois não se muda a essência das pessoas. O que o meu pouco talento cria é resultado das coisas espontâneas. Como nunca entrei no circo da Indústria Cultural, não tenho porque ouvir bobagens de produtores que estão ali contando cifrões ao invés de estar pensando em como buscar as melhores soluções artísticas. Nunca discuti com produtores ou quem quer que seja, o que é mais comercial ou o que é mais agradável para o mercado. Não vejo nenhum problema em uma obra de arte ser desagradável, feia ou grosseira. O que temos no mercado fonográfico é uma eterna repetição temática e rítmica. São os estereótipos e estilemas consagrados pela mídia visando vender seus produtos pasteurizados. Dessa forma, temos a entronização do kitsch como recurso fundamental para a Indústria Cultural.

E N – Mas são as regras do mercado.
M C – Claro. Nesse momento você disse tudo. São as regras do mercado e não do fazer artístico. O que ocorreu é que, muito espertamente, a Indústria Cultural manipulou essas duas categorias distintas, fazendo o povo acreditar que não existe diferença, pois que ambas as pretensões (mercado e arte) se valem do aparato tecnológico. Não tem como gravar músicas sem lançar mão da tecnologia. A diferenciação se dá no que é gravado e com que objetivo. Daí é que, para o povo em geral, todo mundo é artista. Existe uma fronteira muito nítida entre arte e Indústria Cultural. Aliás, a fronteira da arte é delimitada principalmente pelo seu conteúdo revolucionário e isso que está aí não serve para melhorar nem o cérebro de uma ameba sifilítica.

E N – Mas essa manipulação de que você fala, é muito sutil.
MC – Mais do que conseguimos imaginar. Creio que é um processo bem anterior ao escandaloso Projeto Camelot. Em 1969 eu era um menino de dezoito anos. Morava no centro do Rio, perto do Aterro do Flamengo. Nunca vou esquecer que me dirigi ao MAM para assistir a chegada do homem à Lua e que no trajeto estavam distribuindo toda sorte de panfletos. Um especialmente me chamou a atenção, pois se tratava de um cartão postal sobre o evento. Era caríssimo, tridimensional. Imediatamente comecei a pensar o que estava por trás daquilo. Gastei dias refletindo sobre tamanho gasto em propaganda. Imaginei, com alguma lógica, que se distribuíram isso num Brasilzinho cucaracha, o mesmo aconteceu em outros países. Quanto isso custou e com que propósitos? Evidentemente que isso é muito sutil, não se conquista corações e mentes com grosserias, pois que é um campo ideológico. A sutileza é tão eficiente, que a maioria não percebe e mesmo uma minoria fica em dúvida. Nesse sentido, tenho pra mim que alguns processos são quase irreversíveis, pois que arraigados no âmago da humanidade em geral. Por exemplo, a imediata ligação de que o bonito é bom e o feio é mau. O cidadão entra no meio de um filme e, mesmo não conhecendo os atores, imediatamente identifica quem é o mocinho e o bandido. Andei postando uns clips com minhas músicas no youtube. Uma crítica (ou observação recorrente) sobre todos eles é a de que as imagens são sempre desagradáveis, mesmo chocantes. Isso me levou a uma reflexão de causa e efeito, ou seja, se as imagens são desconfortáveis, logo as letras musicais são de igual teor. Aprofundando o raciocínio, observo o panorama geral da nossa música popular e chego à conclusão de que as temáticas que abordo estão fora dos trilhos e muito longe de serem politicamente corretas. Em verdade, a pauta da nossa música popular está atolada numa dualidade em que ou fala de amor ou de sacanagem explícita, sejam pagodeiros, sertanejos, funkeiros, axéseiros, rapperseiros, gospeleiros ou porcarias de igual jaez. A verdade é que me sinto gratificado pela crítica de ser mensageiro do desconforto almano, uma vez que ofício mais coerente com a realidade que se escancara ante nossas ventas insensíveis e bugalhos míopes, pois o que vemos nesse mundão sem medidas é muita miséria, fome, injustiças, espertezas, cretinices, mentiras e (o que recobre tudo isso) hipocrisia. Continuo achando coerente falar (mesmo uma fala redundante) sobre isso. Mas não acredito que a divulgação na Internet de uns clipezinhos pouco acessados vá incomodar aos babões da mídia, aqueles que adoram imagens dulcíssimas e frasesinhas bonitinhas (que não dizem porcaria nenhuma, mas que são agradáveis à consciência), pois disto os canais midiáticos estão abarrotados, como papel de pegar moscas incautas ou descuidadas ante a realidade que as cercam. O último clip que veiculei, “Quem são esses caras?”, já prenuncia mais uma enxurrada de imagens deselegantes, uma vez que as pessoas reais do mundo (a maioria) cultivam aqueles péssimos costumes de viver ao abandono, na miséria e em eterna fome de alimentos e amor.

E N – E o CD Navalhas e Punhais reflete isso?
M C – Como eu disse, a concepção é a mesma. O que vai mudando é o aprendizado que lhe dá uma experiência sobre como realizar na prática. Muito importante, talvez fundamental, são as amizades que vão se estabelecendo no percurso e, através disso, uma realidade que se desvela. Você descobre um processo perverso no qual músicos fantásticos, caras que dedicam a vida inteira ao aprendizado e aperfeiçoamento, serem lançados a um limbo estranho. Um um improviso do Léo Castro em sua guitarra é mais arte que toda a produção (?) “artística” do Felipe Dylon. Em contrapartida, o Léo continua um músico subempregado e o Dylon ganhou rios de dinheiro por umas bobagens que foram produzidas por profissionais em multiplicar capital. O problema é que estes caras sabem ganhar dinheiro, mas não sabem (ou não querem saber) de arte. Não só o CD Navalhas e Punhais reflete as minhas inquietações, mesmo porque não costumo observar as músicas gravadas de forma estanque, mas tudo o que faço são as interpretações sinceras da minha apreensão de mundo. Isso é interessante na medida em que temos o ser humano como um bicho aparentemente uniforme. Grosso modo isso é verdade. O que individualiza a todos indistintamente é a cultura. Por mais parecidos seremos todos diferentes, pois que cada um tem o seu eito pessoal e intransferível que é a vivência e a interpretação dessa vivência. Apenas eu tive as experiências de Marcelo Cavalcante e mesmo quando algumas dessas experiências foram compartilhadas, as interpretações seguramente foram diferentes. Desse arrazoado, muito menino ainda, decidi nunca falsear a minha leitura de mundo, mesmo quando me desagrada, me angustia ou me torna descrente do nosso futuro. Para ser justo e coerente com esse raciocínio, reconheço que o Felipe Dylon tem todo o direito de estar tranquilo com a sua consciência, pois o que faz se coaduna com a sua leitura da realidade. Principalmente numa realidade em que sucesso e dinheiro são categorias valorizadas socialmente, independentemente do que se fez para conseguir.

E N – Na prática, como distinguir a arte da Indústria Cultural?
M C – Existem vários livros sobre o assunto. O pessoal da Escola de Frankfurt dedicou anos e queimou neurônios sobre esta questão. No excelente livro Apocalíticos e Integrados, o Umberto Eco enfoca esta questão e propõe uma solução da qual discordo, pois se prende a uma solução fática ao afirmar que os Apocalípticos se desesperam com este estado de coisas e produzem inúmeros protestos e críticas, enquanto que os Integrados não refletem sobre isso e simplesmente vão implementando o modelo de exploração capitalista. Bourdier nos ensina sobre os mecanismos das trocas simbólicas... O Edgar Morin tem umas abordagens que me convencem e me comovem, principalmente quando ele trata da degradação das mercadorias do espírito e da alma. Acredito que o ponto nevrálgico dessa questão foi colocado por Marx, quando ele observa que o capitalismo não produz coisas para as pessoas, mas sim mercadorias para um mercado indiferenciado e que o seu objetivo não é atender as necessidades humanas, mas sim obter o lucro. Dessa assertiva, podemos diferenciar a arte da Indústria Cultural. De forma decrescente (que se estende aos dias atuais), até a década de 70, a sociedade brasileira mantinha alguns valores sob os quais a identidade nacional se configurava. Tínhamos, até aquela época, costumes (mores) rígidos tanto para a manutenção de fundamentos ético-morais quanto para a hipocrisia e a desigualdade social. Em que pese leis e costumes falseados por uma ideologia dominante, de recorte autoritário e patrimonialista, estes ainda se estacavam sobre a aparência de leis justas e costumes sábios e dignos. Nisso a sociedade em geral acreditava, mormente índices alarmantes de analfabetismo e ignorância da realidade. A vitória do capitalismo sobre o socialismo real e a subsequente globalização decerto tiveram o condão de desestruturar os esquemas prevalecentes e sobre estes escombros foram reconfigurados os costumes (de forma radical) e as leis (principalmente sobre comércio internacional e quase nada de cível e penal). Claro e evidente que as mudanças sociais ocorrem sob o figurino dos interesses da classe hegemônica. O episódio de (mais uma vez) se jogar fora a criança junto com a água da bacia se repete na nossa historiografia, uma vez que ocorreu a troca de valores baseados na honra estamental por outros puramente econômicos (racional-legal). Da mesma forma, a salutar liberação dos costumes (da intolerância e preconceitos religiosos, sexuais, de raças, etc.) veio em dose mastodôntica, criando expectativas e reivindicações histéricas e nos lançando num cenário em que se anunciar gay, negro, natureba precede as próprias competências e qualidades. Um cenário pelo avesso que deixou de lado as sanções sociais e passou a premiar as transgressões, onde um bom escândalo (de qualquer natureza) faz o famoso ganhar mais dinheiro e mais notoriedade. Há que se estabelecer distinções entre a arte e a indústria cultural, pois esta se estabeleceu como sucedânea da primeira, apenas por força das aparências. No núcleo basilar desta questão, podemos afirmar que quando se faz algo para a obtenção do lucro puro e simples, se faz comércio e não arte. Desta forma, a preocupação social dos artistas não pode ser a mesma dos personagens que se dedicam à indústria cultural, pois que estes produzem mercadorias impessoais que, independem de suas qualidades (conteúdo), pois que são vendidas segundo estratégias do mercado. Uma obra de arte, o mais das vezes é fruto da criação individual, mas sempre se reporta e se desdobra em enriquecimento da sociedade, ou seja, a obra artística tem como fundamento e destino a sociedade e não o próprio artista. Já faz tempo que manifestações artísticas se transformaram em reles “mercadorias da alma e do espírito” e ultimamente estamos assistindo ao coroamento deste processo de transformação de artistas (pessoas humanas) em mercadorias. Um exemplo bem explícito e grosseiro é determinado artista se deixar enredar em promoções nas quais o prêmio é um jantar com ele. Não sei porque diabos alguém se encontraria com outrem por força de uma premiação e, neste caso, a pessoa é coisificada, nada mais sendo que uma mercadoria a ser entregue em cumprimento de uma obrigação comercial. Nos (des)caminhos da fetichização globalizada, mais relevante que a qualidade da música ou do livro lançados são as informações (fúteis e vazias), veiculadas como notícias sérias, sobre a vida privada dos seus autores. Aí se dá a consumação da estratégia de um merketing que é esvaziar a coisa a ser vendida (escamoteando sua má qualidade) e agregar a ela predicados externos e dissociados.

E N – Então, a seu ver, com a globalização, a arte está com seus dias contados e o Fukuyama acertou ao preconizar o fim da história?
M C – Fukuiama é apenas mais um produto da Indústria Cultural, apesar de vir embalado em fumaças filosóficas. A minha tese de mestrado – O Privilégio da Arte e a Arte do Privilégio – aborda as questões da arte e da Indústria Cultural. Ocorre que, no mesmo período, desenvolvi pesquisas sobre ecologia e sustentabilidade. Estas duas preocupações se fundiram num problema que desembocaram na ideia de ecologia do simbólico. Tempos depois escrevi um livro, Ecosimbolismo, que me trouxe uma inquietação sobre o futuro da humanidade. Não obstante a ideologização e histeria que se verifica entre a militância natureba, pode-se concluir que a exploração indiscriminada do meio ambiente produz danos e coloca em risco a vida no planeta. A tecnologia potencializa cada vez mais o poder de destruição e se faz necessário colocar um freio no desiderato do modelo de produção capitalista. Ao mesmo tempo, tais medidas não podem (assumidamente) condenar pessoas à morte. Isso parece uma questão malthusiana, mas não é. Para aferirmos a degradação do meio ambiente, contamos com experiências simples, além de outras complexas, e de fácil verificação. Observações de causa e efeito nos diz que se jogarmos mercúrio numa lagoa, os peixes vão morrer. O problema é que quando falamos de sistema simbólico, não temos o mercúrio nem os peixes. Como o sistema capitalista é o mesmo tanto para a produção industrial quanto para a Indústria Cultural, no seu afã de lucro ele não observa limites nos danos que pode causar. Resumo da ópera, temos um discurso ideológico articulado que combate a degradação do meio ambiente físico (inclusive com legislação e penalidades), mas não temos nada, até o momento, no que se refere aos danos causados ao sistema simbólico da humanidade.

E N – Quase ao mesmo tempo de Navalhas e Punhais você gravou mais dois outros CDs, que foram “Maias e Cavalcantes” e “Cancioneiro Geral”. Não é muita coisa ao mesmo tempo?
M C – Tem gente que considera muito trabalho. Eu considero muito prazer. Desde menino que tenho prazer em fazer música e em escrever. Fiz mais de duas mil músicas e tenho mais de cem livros escritos. Fiz isso durante a minha vida, sendo muito feliz nesses momentos. Arte não é trabalho, é prazer e é angústia. O CD “Maias e Cavalcantes” me reporta a um tempo que já faz muito tempo, ou seja, nele as canções são muito antigas. São todas em parceria com o meu irmão caçula, o Paulo Maia, e isto tem uma história bem peculiar. Escrevi as letras com quatorze, quinze anos de idade. Cinco anos depois o Paulo colocou as melodias (ele tinha uns dezessete). São canções feitas por adolescentes. O curioso é que observo e não me reconheço, com aquela idade, escrevendo aquelas coisas. Sempre desconfio de que, naquela pouca idade, eu não tinha conhecimentos ou maturidade para cometer aqueles versos. Já o CD “Cancioneiro Geral” encerra canções de diferentes épocas e variados parceiros. O título é uma homenagem subliminar ao Geraldo Vandré, com quem convivi uns tempos em Teresópolis e quase fomos parceiros musicais. Explicar essa homenagem daria um livro, pois não tem nada a ver com a imagem pública do Vendré e muito menos com as inúmeras e fantasiosas versões que circulam sobre a vida dele.

E N – De alguma forma, ao gravar esses CDs, você pensa em sucesso?
M C – Parafraseando (novamente) o Sérgio Porto, acho que, nas atuais circunstâncias, “fazer sucesso é não fazer sucesso”. É uma contradição de termos, mas as evidências mostram que o sucesso está destinado ao rebotalho. Acho que já adquiri maturidade e sofrimento suficientes para não escutar estas sereias. Administro minhas convicções e minhas necessidades de forma razoável. O sucesso, na sua versão atual, não é razoável e, portanto, inadministrável. É muito mais confortador sensibilizar realmente apenas uma pessoa que ser uma mercadoria consumida e descartada por 5 milhões de consumidores já e sempre àvidos pela próxima novidade. Melhor darmos uma chance ao silêncio.

E N – Sob o seu ponto de vista, sucesso, fama e dinheiro não são bens desejáveis ou mesmo éticos?
M C – Essa é uma questão paradoxal. Sucesso, fama e dinheiro acompanham um processo histórico e, dessa forma, são significativamente precários. Os desejos humanos são ilimitados e a realidade, ao contrário, extremamente limitadora. Vivemos em regime material de escassez. Essa contradição entre desejo e realidade tem levado a historia da humanidade a conviver com situações patéticas e irreais. Acredito que estamos perdendo o senso das medidas, pois foram estabelecidos parâmetros de exploração que extrapolam, sob qualquer aspecto, os limites da razoabilidade. Produzimos, no país, a oitava riqueza do mundo e temos a mais iníqua concentração de riqueza do mundo dito civilizado. Um país que produz esse manancial de riqueza não pode impunemente condenar o povo à miséria e exclusão social. Esse estado de coisas explica sucesso, fama e dinheiro. Enquanto a maioria esmagadora sobrevive em seus guetos (os caiçaras, os favelados, os sem-terra ou teto, os desvalidos), as celebridades aumentam o potencial de satisfação dos seus desejos. Os recursos materiais são limitados e escassos em contrapartida à ilimitada possibilidade de sonhar... Essas elites do poder (os ricos, os escolhidos, os querubins, os famosos), assenhoreados de uma insensibilidade esquizofrênica, passam a viver e construir um mundo às avessas, verdadeiros reinos encantados onde se alimentam da ilusão de que todos os seus sonhos (mesmo absurdos) podem ser realizados, toda a sua fome consumo fútil pode ser saciada. Isso implica um processo de legitimação que se dá pela ideologia. Essa banalização das fortunas ostensivas é possível num processo social em que o povão é deliberadamente alienado. As massas são induzidas a uma histeria acrítica pelos seus ídolos, reverenciam esses valores indiferentes aos conteúdos. Fama, sucesso, dinheiro ou poder não são os frutos do merecimento, mas antes uma condição do privilégio. Essa loucura toda tem feito vítimas de ambos os lados. Se, de um lado, o povo paga a conta do consumo perverso, as celebridades, de uma forma ou outra, estão expostas ao ridículo de suas ações medíocres.

E N – Mas, o sucesso...
M C – O sucesso só poder ser explicado como fruto da admiração. É natural admirarmos coisas ou feitos excepcionais. Quebrar um recorde mundial não é tarefa corriqueira e merece admiração. O que não entendo é a admiração, e mesmo adoração histérica, por um cidadão que numa pista de corrida, faz 100 metros em meia hora. Isso, uma pessoa comum realiza com facilidade. Por que seria admirado? O que a sociedade ainda não percebeu é que está admirando o ordinário, babando diante de pessoas que não fizeram nada excepcional. Mesmo a admiração merecida requer uma postura mais comedida. De mais a mais, depende do que se entende como sucesso. Na minha avaliação pessoal é um sucesso pleno, uma vez que todas as canções foram gravadas, ficaram muito boas e paguei todos os custos. Tenho muito a agradecer a tantos artistas que somaram suas técnicas e seus talentos às gravações. Músicos dedicados além da identificação e do afeto pelas canções. Especialmente o Plínio Oliveira, que se largou lá do Paraná, deixando os seus muitos quefazeres para colocar voz em duas canções (Mensagens e Infâncias), e aos decanos Zé Menezes e Carminha Mascarenhas que perderam tempo com um compositor desconhecido. Quanto ao conceito de sucesso no significado corrente, não existe essa cogitação. As minhas canções não serão tocadas nas rádios e muito menos na televisão. A parte boa da história é que não serei assediado para falar bobagens sobre um cotidiano rasteiro, sobre a impessoalidade da minha pessoa. Essa coisa do sucesso é muito manipulável. Tenho como certo de que existem duas trajetórias paralelas; uma é a trajetória mundana da obra, que depende de condições sociais do autor. A outra se resume no conteúdo da obra, que é a única coisa que pode levar à consagração eterna. Veja a trajetória mundana dos quadros de Van Gogh que foi de absoluto fracasso e observe o caminho auspicioso que estas mesmas obras trilharam em função delas mesmas. Ninguém lembra nomes de alguns imortais da Academia Brasileira de Letras, pois que lá estiveram por conta de seus poderes mundanos. Entretanto todos sabem quem foi Guimarães Rosa, Drummond e Érico Veríssimo, e estes dois últimos não pertenceram à Casa de Machado de Assis. Já faz tempo que o impagável Stanislaw Ponte Preta escreveu que “fazer sucesso não é ir no Chacrinha, é não ir”. Hoje fazer sucesso é ir no Domingão do Faustão, apesar de ser um programa sem nenhum compromisso com a arte do país. Mas não observo nenhuma reflexão ou crítica uma vez que parece que a sociedade brasileira (via ideologia midiática) assumiu, mesmo que compulsoriamente, esta hipocrisia do vencedor a qualquer custo. O maior desserviço que os meios de Comunicação de Massa prestaram foi a obstrução da crítica, que conseguiu emparedar as sociedades numa era de profundo conformismo. Quatro décadas atrás a sociedade brasileira (certa ou errada) vaiou artistas como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso e Sérgio Ricardo e na atualidade não consegue criticar completos debiloides travestidos de artistas consagrados e ricos.

Elias Nogueira – Uma palavra final?

Marcelo Cavalcante – A indústria de entretenimento (re)produz os incontáveis pesadelos que são compartilhados por milhões de cidadãos submetidos à domesticação ideológica do conformismo, seja simbólico ou consumista. Nos palcos e interiores dos estúdios (que se transformaram em verdadeiros picadeiros), foram instalados e são administrados verdadeiros manicômios estilizados, onde desfilam a fina-flor do gosto bizarro, onde a bundalização das ideias está a nos indicar que criatividade e talento mudaram-se de mala e cuia, do cérebro para os glúteos e o sucesso ou fracasso artístico fica condicionado ao trottoir que expõe as partes pudentas, mas que vende as consciências. Em uma longínqua década de sessenta, onde éramos mais puros e crédulos, o cientista Edgar Morin já nos alertava para o fato de que, sendo a cultura de massa um diálogo desigual entre uma produção e um consumo, a “ideia da cultura de lazer, sua obscura finalidade, é a vida dos olimpianos modernos, heróis do espetáculo, do jogo e do esporte” e, desta forma “essas novas mercadorias são as mais humanas de todas, pois vendem no varejo, os ectoplasmas de humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma”. Esta ausência de autonomia estética nos concede autoridade para afirmarmos que o Big Brother é um irmão perverso e que A fazenda mais parece a plantação da mãe Joana. E neste salgar da terra, o que mais entristece é ver diuturnamente a mídia estalar os dedos e a sociedade babar incontinenti.

Rating: 2.5/5 (111 votos)

ONLINE
1







Total de visitas: 24256