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FORMA E CONTEÚDO
FORMA E CONTEÚDO

Faz tempo e eu era um menino buchudo, ainda com remelas nos olhos e catarro escorrendo do nariz até o beiço... Apesar dessas boas qualidades, tinha meus defeitos e o principal deles era me interessar por política e pelos destinos dessa nossa pátria amada. Eis que peguei um pau de arara da Varig e fui revisitar os familiares nordestinos, tal qual sou: paraíba, paruara, cabecinha de batê bife, etc. Lá com a primalhada de esbórnia em esbórnia, acabei me encontrando com o primo Ailtinho. Era um churrasco daqueles que nunca acaba e todo mundo se embriaga. Mas antes do porre, conversei ror de tempo com oprimo e enveredei a conversa para a política, deputância, senadorância, Brasília, voto, povo, democracia... Dia seguinte me quedei estatelado ante a contradição de termos, ou mais precisamente, de personagens. Constatei que o primo Ailtinho não entendia nada de política e não tinha a mínima vocação para tais assuntos, e a coisa de seu mais apreceio era comer umas quengas lá na Praia do Futuro, na época local deserto. Até aí morreu e enterrou-se o tal do Neves, não fosse um pequeno detalhe: o primo era deputado federal.

Essas rememoranças acima bem podem servir para mostrar como a coisa funciona nas nossas cabeças, que costumam fazer sinapismos automaticamente, ligando formas e fatos sem a intermediação da crítica. No caso acima, liguei automaticamente um deputado federal à política.

Claro que a maioria das vezes estas ligações ocorrem sob uma intensa carga de mistificação, diuturnamente despejada sobre os nossos frágeis e desataviados neurônios. Há uma gama multifacetada de interesses (que correm para o mesmo sempre rio) que se encarregam de, através da ideologia, embutir esses (pré)conceitos nas cabecitas de nosotros, cucarachas comedores de farinha de segunda e de esperanças de terceira. Mas a patranha é tão bem urdida e executada que quase nunca nos apercebemos (e dizer que foram os nazistas que sistematizaram esse processo) como somos transformados e marionetes dos valores sociais.

Será que as pessoas não se dão conta de coisas tão simples? Por que será que o estranhamento não faz parte do nosso cotidiano? Muito provavelmente porque não somos uma sociedade educada para analisar e criticar os fatos. Ao contrário, o que desejam (e conseguem) é que sejamos um bando de vacas de presépio que estão ali apenas para compor um cenário onde os atores principais luzem qualidades e talentos que não são possuidores.

Pindamonhangaba! Já reparou que se você passa a assistir um filme em andamento, sem saber a trama nem nada, consegue descobrir que é o mocinho e quem é o bandido numa simples olhadela? Como isso é possível? Simples... Fomos por anos a fio inculcados com a ideia de que o bom (mocinho) é bonito e o mau (bandido) é feio. Tal raciocínio de causa e efeito é de uma sandice mastodôntica, mas vivemos diuturnamente a repeti-lo sem nos apercebermos. Tradução: Brad Pitt é bom e José Lewgoy é mau. Daí que subliminarmente, a sociedade em geral passa a observar pessoas bonitas (fisicamente) como boas enquanto as feias são más. Daí o espanto com eu é recebida a notícia de que um galã global agiu de forma grosseira, ou seja, foi escroto. Não é uma gratuidade observarmos que já faz tempo que a mídia cultiva (convenientemente) a infantilização da sociedade, onde atores que fazem personagens maus nas novelas são xingados na rua...

Mas tem um cenário em que a porca é obrigada a torcer o seu rabito, e isto se dá no momento em que estes delírios de um mundo cor de rosa é submetido ao crivo de uma lógica que nem necessita de muita sofisticação. Basta nos perguntarmos quem é Ronaldo, o Fenômeno, por exemplo. Decerto, um excelente jogador de futebol, mas seguramente apenas isso não o habilita a ser um cidadão completo, como as pessoas são levadas a imaginar. É mais razoável entender que ele, por suas qualidades atléticas, precocemente abandonou os estudos e rapidamente ingressou num mundo encantado que decerto não contribuiu muito para um entendimento equilibrado de mundo. O mesmo ocorre com o ator global. Devemos nos perguntar primeiro quem é esse cara e o que ele entende, para depois nos espantarmos (ou não) com alguma atitude que venha a tomar.

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