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Saga dos Perplexos Movimentos / Marcelo Cavalcante
Saga dos Perplexos Movimentos / Marcelo Cavalcante

Ao enveredar pela grota, o cavaleiro mergulha no escurão de breu. Por instinto se inquieta com o bufar do cavalo que refuga caminho. Pela trilha, a água escorre transformada em riacho, pela chuva que não dá tréguas.

 

– Êh! Bicho! Vamo Tutoró. Arriba, bicho! Ora...

 

O atiçar das esporas reconfirma a ansiedade de mais romper as léguas que o separam do seu intento. Trote avexado, fora do desuso, aflora a ansiedade de romper caminhada longa. O semblante tenso do cavaleiro se imiscui no arfar da montaria o que redunda num quadro angustiado de expectativas.

 

– Eia, Tutoró! Vamo bicho!

 

Num último arranco o animal vence o tope da ladeira e retoma a marcha acelerada. Aos poucos abandona o lugar aziago que deixa impressões indefinidas.

 

Eita, lugá desaprumado da peste! Coisa ruim, agonienta, de muita esquisitice! Loca do inferno... Lugá mode acoitá lacrau e mais bicho peçonhento... o cão! A bem nos conforme pra se fazê tocaia. Se enfurná em loca, no escurão e com a chuva no lombo, num é coisa de gente... Lacraia verdadeira... Arre! Grota acochada, que mal e mal dá pra se vará eito afora. Arre! Atocaiado aqui, num tem muito mode s‘escapulir vivo. O cabra, lá em riba, dormindo mira, só carece de puxá o gatilho que a morte tá agarantida. Hum! Quem mandô fazê muita morte a podê de tocaia foi o peste do Barrado... Hum! Pedro Barrado era cabra desinfeliz de um tanto. Quando eriçava com um cristão, nem piscava. Chamava Henricão, o Macaxeira e mandava matá avexado. Macaxeira era cabra trevoso, mestre em atocaiá a mando. Nas covardia matô muito cristão que nem tinha tempo de fazê o pelo sinal. Era cabra safado, de monta! Barrado... Pedro... Alembro de a cuma foi. Estuporô... Foi. Por tico de nada, desfeiteô pai... Pai Genolino que amolengô do sangue e nunca que mais foi o mesmo cabra opinioso... Cobra come caçote e o tempo come o tempo... Nos amisturados do lembrado não se apura quase que um nada e o que fica é o azedo de tudo...

 

É Manêgo o cavaleiro indócil, é Tutoró a cavalgadura exaurida. Ambos absorvidos pelos seus destinos apartados pelas razões e desrazões da realidade.

Repuxo de pensamentos desencontrados.

 

Alembro... era pexote, mas alembro como se hoje... Mió morrê que ficá como pai, sem cabresto pra guiá a vida... Amofinô, o pobre, como se medrando de um tudo... Agora é essa consumição com Toinzim... Não inteirado ´stô, mas sei que Toinzim, arretirado em pacatez, deve de tê lá as razão de tanto...  Ele num ia matá-matado um cabra, assim-assim, por dá aquela palha.

 

– Heim, Tutoró?! Mais um tico de nada e nóis esbarra mais o Ferrim. Aí, ocê pode tê um descanso... Pouco... Deve de tá escambichado...

 

Isso é que é cavalo sem igualha! Tutoró... Já varamo o mundo de arrodeio e ele sempre macho, firme pras necessitudes... pau pra toda obra. Toinzim em cadeia... Isso é lá conversa! Mais pouco se arresolve... É fazê a gata parir!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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