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Quando a solidariedade se transforma em azedume
Quando a solidariedade se transforma em azedume

Quando a solidariedade se

transforma em azedume

 

Se ainda não fiquei paranoico, talvez o que vou afirmar tenha algum fundamento, senão, esqueçam. O que percebo nas entrelinhas (na mídia e mesmo nos fatos) é que muitos artistas famosos e/ou consagrados (mesmo os com merecimento) andam administrando as suas carreiras de forma um tanto quanto estranha no que diz respeito ao prazer de criar ou ao ofício de fazer.

Vivemos esbarrando a todo tempo com contradições e algumas são indecifráveis diante do nosso pouco entendimento. Sou pacifista no atacado e no varejo. Não suporto violência seja física ou mental. Entretanto, pratiquei pugilismo (muito pouco) e judô (bastante tempo) e sou o que se pode denominar de um aficionado por lutas da nobre arte. Recentemente assisti a um combate que envolvia muito (como tudo hoje em dia é espetáculo) de esporte, circo e extravagância. O pugilista Oscar de La Hoya (o menino de ouro americano é filho de mexicanos, fala preferencialmente em idioma espanhol e antes de suas lutas é tocado o hino mexicano) foi campeão olímpico (medalha de ouro para os EUA) e um dos melhores por muitos anos, sendo campeão em várias categorias, enfrentou um filipino (Many Pacquiao) encardido e guerreiro. Tudo nesta contenda estava a favor do americano: peso, tamanho, envergadura, força, experiência... Entretanto, o menino de ouro levou uma verdadeira surra no transcorrer de oito rounds e, ao final, desistiu. Tudo bem que estava com o rosto avariado, mas nada tão drástico que o impedisse de continuar. Seguramente, nos tempos em que buscava sucesso na carreira, jamais desistiria de uma luta daquela forma. No início de carreira, perder uma luta significa se afastar da fama e do dinheiro, nas atuais circunstâncias, ao desistir bisonhamente, de La Hoya sai do ringue em condições de ganhar outras fortunas. É sabido que o sucesso, a fama e o dinheiro (montanhas) faz o cidadão se acomodar e não mais fazer os sacrifícios que qualquer quefazer (bem feito) demanda. Ao que tudo indica, fama e dinheiro arrefecem o ímpeto, amenizam a gana de ir a luta. Este processo em alguma lógica quando falamos de ganhar a vida quebrando a cara, levando porradas, mas não encontro similaridades quando o mesmo ocorre com artistas que demonstram talento e, após um merecido sucesso e uma boa conta bancária, se acomodam, pioram as suas produções. Entendo que deveria ser o contrário, desde que enquanto artista, o que faz nada mais é que prazer. Será mesmo que fama e dinheiro são alimentos suficientes para desviar o artista do prazer de elaborar a sua arte e o desviar para prazeres outros, de preferência mundanos, de consumo conspícuo? Talvez para a maioria das pessoas este seja um roteiro natural, de fácil entendimento. O meu estranhamento se dá por razões íntimas, por saber que dinheiro nenhum, fama alguma, me privaria do prazer de trabalhar meus textos e fazer as minhas canções. Bom, cada um acredita no que quer e presumo que cada qual deve saber (deveria) o endereço da “sua” própria felicidade. Será? A realidade marqueteira acredita que o povo nada mais é que um exército de beócios; uns débeis mentais que necessitam que lhes ensinem os (des)caminhos da felicidade. Grosso modo, a receita para a felicidade é ganhar muito dinheiro (e se possível fama) para poder comprar carrões, iates, ilhas e mulheres (ou vice-versa).

Vendo uma propagando de um novo modelo de carro, observo que a mensagem subliminar é que o jogador de futebol tal usa aquele carro, logo... Logo o que, cara pálida? Por que diabos eu gostaria de ter o mesmo modelo de carro daquele gajo? Outra propaganda afirma que aquela atriz de novelas usa o papel higiênico de tal marca. Logo, a maioria dos mortais passa a desejam limpar a bunda com aquela mesma marca. Estamos perdidos, uma vez que o raciocínio é linear, paupérrimo... e funciona!

Uma explicação muito boa sobre essa questão da idolatria pode ser encontrada em Nietzsche (Humano, Demasiado Humano, 1978) quando ele busca nos convencer de que simbolicamente nos escudamos numa desculpa que justifique a nossa incompetência. Para ele “persuadimo-nos de que a faculdade para isso é maravilhosa acima de todas as medidas, um raríssimo acaso, uma graça do alto”, e que isso se justifica plenamente em função da nossa vaidade e nosso amor-próprio que “propiciam o culto ao gênio: pois somente quando este é pensado bem longe de nós, como um miraculum, ele não se fere (...) Denominar alguém ‘divino’ quer dizer: aqui não precisamos rivalizar”.

A minha visão particular sobre o assunto talvez se mostre um tanto quanto reacionária ou mesmo raivosa, mas é a única que disponho no meu almoxarifado de achismos e devaneios. Como sempre entendi que a arte é um dom disponível a todos, sempre me convenci quer posso realizar qualquer trabalho artístico, desde que domine as técnicas necessárias. Por extensão, o máximo que posso sentir é respeito e admiração diante de uma obra de arte e não vejo sentido algum me extasiar diante de um artista e muito menos ter interesse por sua vida particular. Por que exatamente me apegaria às minudências da vida da Xuxa, do Ronaldinho ou do Roberto Carlos? Noves fora o total delírio, são pessoas de carne e osso e, até prova em contrário, quando vão ao banheiro cagam como qualquer mortal. (Tá vendo como fico irritado com esse assunto?).

O que dizer de pessoas pacatas que se transformam em exímios arruaceiros quando o seu time de futebol perde? Como entender essas pessoas que formam uma horda e promovem vandalismos?  Há sentido chorar motivado por um gol no fim do jogo?

Mais difícil ainda (de explicar) é a existência de pessoas que se sentem possuídas por seus ídolos. São os admiradores compulsivos que formam fã-clube, colecionam notícias, compram revistas, fotos e perdem metade de suas vidas em estéreis discussões sobre tais personagens. Certa vez publiquei um texto num jornal e sempre que lembro dele sou assaltado por uma sensação de desconforto. Possivelmente fui extremamente rigoroso ou mesmo perverso com a nossa sociedade em geral. Gostaria muito de renegar aquelas palavras, desdizer as afirmativas, esquecer o assunto. Ocorre que, por mais que queira, continuo a acreditar que não exagerei e apenas expus uma constante. Reproduzo o texto que tem por título uma palavra tão cara:

 

 

Solidariedade?

 

“A saudade é arrumar o quarto

do filho que já morreu”.

Pedaços de mim - Chico Buarque

 

Algumas pessoas, uma minoria, nascem e vivem sob o signo dos privilégios, da abastança e infensas às preocupações comezinhas da maioria esmagadora da população. Nunca provaram o desespero e a frustração da falta de dinheiro para o leite ou a passagem de um ônibus suburbano, nem imaginam o que representa a dor do sentimento de subumanidade que avassala o povo e que solapa a sua autoestima. Vivem toda uma vida de fausto, luxo e futilidade, consumindo o que desejam e não apenas o que necessitam. Não respiram o fedor que enreda o mundo e circulam entre o ouro a mirra e o perfume caro das suas obsessões. São respeitadas, veneradas, adoradas, endeusadas e reverenciadas como se fossem seres acima da humana e precária condição de seres do mundo.

Mesmo os que após algumas dificuldades conseguem atingir este estágio de riqueza e prestígio, constituem uma minoria ínfima, diante dos milhões e milhões de condenados à condição de rebotalho, condenados à exclusão social e econômica.

Doenças como o câncer já matou milhões e milhões de viventes que foram condenados ao anonimato das estatísticas científicas e governamentais. Doenças afligem o corpo e a mente da humanidade e são observadas como fatos contingentes, coisas naturais, banalidades do sofrimento.

Num tempo em que éramos mais ingênuos e a indústria de futilidades ainda embrionária, o povo foi envolvido pelo melodrama grotesco do Segundinho. O país (via notícias e divulgação melodramática) ficou penalizado com o fato de que o primogênito do “rei” Roberto Carlos tinha nascido com um problema de visão, problema esse rápido e prontamente minimizado com uma operação nos Estados Unidos. Este tipo de manipulação esconde o sofrimento das pessoas normais e hiper dimensiona o das celebridades. Imaginemos quantas crianças, naquela época, morriam de fome ou de doenças facilmente curáveis. Ninguém estava interessado.

Mais recentemente a mídia esfregou de forma abusiva o novo drama do “rei”, a morte de Maria Rita. Milhões e milhões de Marias e Ritas morreram naquele período, eram amadas, mas os seus maridos não podiam se dar ao luxo de ficarem sofrendo morbidamente, uma vez que tinham que sair de suas palafitas e favelas, pegar as suas marmitas e continuar provendo a subsistência em obras, em fossas, em escritórios, bancas de camelôs e outras.

É extremamente bizarro e absurdo assistirmos impotentes a idiotia plena de uma apresentadora de TV a endeusar o exemplo de coragem ante o sofrimento de Ana Maria Braga, recentemente submetida a uma quimioterapia. Milhares e milhares de pessoas estão morrendo por falta de condições de acesso a esta corajosa quimioterapia e ninguém liga. Dessa forma, instaura-se um mundo de carochinhas onde as vicissitudes só existem para os escolhidos; como se apenas eles tivessem sentimentos e, apesar das facilidades materiais que têm em relação aos outros, só eles sofrem e (absurdo dos absurdos) a população tem o dever de ser solidário e sofrer junto com eles as suas dores. E este pretenso dever é exigido mesmo quando estas dores são de plena, rasa e ridícula puerilidade, como no caso de pessoas sofrerem pelo fato patético de o namoro entre o Maurício Mattar e a Angélica não estar dando certo. Na mesma medida, ninguém se comove ou presta atenção para Joana do Tombo, que depois de toda uma existência de injustiças, fomes, sofrimentos, privações e dores está com um câncer a lhe corroer as entranhas e nem sabe que existe quimioterapia, pois que as fabulosas descobertas da ciência não ultrapassaram as fronteiras da ponte sob a qual dorme, após um dia recolhendo o lixo despejado por nossa insensibilidade.

Como se a construção de um mundo de fantasias – um parque temático de felicidade extrema e eterna – para os privilegiados do país fosse ainda insuficiente para aplacar a sede de vaidade e notoriedade. Como se não bastasse a odiosa opulência, fosse necessário ainda, o sofrimento e a solidariedade incondicional para com a unha encravada da “modelo” da capa de revista; rezas e promessas para a pronta recuperação da depressão que acomete a drogada da novela das oito; a torcida para o pleno sucesso da gravidez da apresentadora do noticiário; o choro e o lamento pelo fim do casamento – um acordo de interesses mercadológicos – do publicitário milionário (doravante corno midiático) com a apresentadora infanto-debilóide também milionária; a gripe da “cantora” de boleros melosos e de nenhum talento; a separação do megaempresário (doravante corno universal, pois que midiático) daquela famosa não-sei-de-quê; e a torcida para que todos vivam incólumes, sem doenças, sofrimentos ou mortes. Há que se reconhecer que isto é mais que o oferecido pelo jardim do Éden. Seguramente este paraíso terrestre nunca esteve tão distante por força da acumulação capitalista que nos levou a uma realidade que, segundo a ONU, metade da população mundial vive abaixo das condições normais de humanidade, por falta de alimento, saúde e educação básica na infância e juventude. Esta mesma pesquisa indica que 20% da população mundial consome 80% dos alimentos, criando uma situação esdrúxula, completamente absurda. Pois é neste cenário que se conseguiu o fantástico milagre no qual a maioria de miseráveis sofre pelas enxaquecas dos saciados, super-felizes e hiper-saciados. Uma sociedade domesticada pela mídia a tal ponto, que induz o cidadão simplório e cordato a sentimentos antinaturais, que o levam ao deslimite patológico de chorar pelo sofrimento do ídolo, distante e imaterial, e não fazer o mesmo pela morte do próprio filho. O que é isso, senão a bestialização dos sentimentos e a negação de uma razão espiritual?

O que adiciona uma carga patética a toda esta paisagem de fantasmagoria e terror, é que estes deuses da ridicularia tupiniquim, são verdadeiros simulacros que chafurdam na mediocridade, na ignorância e mesmo no analfabetismo. São os frutos da impossibilidade de um marketing obtuso e insensível.

Infelizmente, o sentimento suscitado por esta mídia histérica, apesar de ter os requisitos da consternação solidária, é apenas a mercadoria degradada da nossa desumanidade.

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