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As gritantes contradições em torno da simplicidade
As gritantes contradições em torno da simplicidade


A fé aprisiona mais do que liberta, na medida em que faz o seu portador enxergar como verdadeiros os frutos dos seus desejos ao invés da realidade que se estampa diante os seus olhos. A fé obnubila os sentidos e faz com que o crente exercite raciocínios mirabolantes quando o que acredita se apresenta sem sentido ou explicação lógica. A fé mergulha a humanidade num efeito tostines, infantil e debiloide, na medida em que preconiza uma infalibilidade baseada em palavras vazias do tipo: o cidadão reza para deus curar o câncer materno, se ela obtém uma melhora, foi deus, se ela piora, deus sabe o que está fazendo, afinal ele escreve por linhas tortas. Fico imaginando se as sociedades em geral fossem nortear as suas relações materiais baseadas nesta estultícia. Não sobraria pedra sobre pedra...
Em sua homilia, proferida na missa em Aparecida, o papa Francisco critica “o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar a esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer”.
A frase está correta e a crítica é justa. O que destoa é o fato de que o próprio para Francisco é fruto dessa idolatria, que foi conseguida através dos mesmos artifícios usados pelas Madonnas e Brad Pitts da vida.
Não sei quais os marqueteiros que atendem o Vaticano, quais emprestam os seus préstimos prestidigitadores ao papa, mas usam os mesmos métodos midiáticos. Imagino que, dessa vez, farejaram os ares taciturnos e revoltosos que sombreiam um mundo de misérias e desigualdades e resolveram criar uma imagem de um papa livre, leve e solto, um papa light, com ares de franciscano sobre o qual a simplicidade transborda por todos os poros. Pode ser até que uma pessoa muito rica e poderosa tenha hábitos simples, mas terá sempre em seu entorno (e quando necessário) o poder e a riqueza ao seu dispor. Isso só não acontecerá se o tal ricaço poderoso, a exemplo de Buda, renunciar formal e legalmente aos bens e poderes.
A realidade mais concreta é que o papa tem poderes plenipotenciários (legislativo, executivo e judiciário) sobre um estado que, apesar de minúsculo, goza de todos os direitos no concerto das nações. A dura realidade é que este estado tem menos de 500 habitantes residentes e mantém um palácio (papal) com mais de mil quartos. Aliás, segundo dizem, o indigitado palácio tem: “5 mil quartos, duzentas salas de espera, 22 pátios, cem gabinetes de leitura, trezentas casas de banho e dezenas de outras dependências destinadas a recepções diplomáticas”.
Dessa forma, haja fé para crer que o comandante de tais poderes e riquezas é um cucaracha portenho, simpático e simples.

 

Marcelo Cavalcante

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