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COMO EMBALAR UM SONHO?
COMO EMBALAR UM SONHO?

Depoimento de Marcelo Cavalcante sobre

“Como embalar o sonho”, música de sua autoria com César Ceará.

“Há uma epidemia da palavra amor nas canções populares e este fato poderia vir a ser uma coisa benfazeja, não fossem algumas questões que quedam contraditórias. Em verdade a quase maioria das letras que falam de amor se referem ao amor carnal e romântico, ou seja, elas suscitam o apelo sexual ou um amor ideado. Neste último caso, um amor a ser fruído apenas por pessoas bonitas, bem nascidas e afogadas de puros sentimentos. Escutando canções com tais conteúdos, fica impossível imaginar um casal de mendigos ou de leprosos se amando ou mesmo namorando num banco de praça. Por que não teriam estes deserdados da sorte acesso (e direito) ao amor? A resposta é simples: claro que todos têm esse direito, exceto no mundo construído pela cultura popular que vai conformando uma ideologia de mundo que embute a segregação. Acredito que o uso abusivo da palavra amor, apenas para achar uma rima fácil ou para ganhar mais dinheiro, emporcalha a própria palavra, joga-a na vala comum dos dessentimentos. Pior ainda, quando o seu autor não tem nenhum compromisso com o que diz ou escreve, exceto quando afirma na canção que vai cobrir o seu amor de porradas.
A verdade é que inexistem os tradicionais artistas populares, mas sim uns “artistas” que conseguem entrar nos esquemas privilegiados que os tornam ídolos instantâneos e que enriquecem da noite para o dia, no ofício patético de repetir os estilemas preferidos das mediocridades. Estes “artistas” não possuem fala nem sentimento social, apenas seus desejos pessoais de se dar bem. Já faz tempo que não sinto sinceridade nos versos desse povinho mofino, um mínimo de preocupação com os destinos deste país sem juízo ou com a vida do povo. Povo de verdade, uma maioria silenciosa e silenciada (manipulada) pelo poder ou pelo convencimento (mídia), que não sabe o que é viver decentemente, mas que deseja sinceramente que os seus ídolos (mesmo os BBBs da vida) sejam felizes ou que o Flamengo ganhe o campeonato. Em sua vã ingenuidade, o povo idealiza que estes ídolos são legais, generosos e muito chegados a ele...
Pela vida escrevi mais de mil músicas e deve ser pelas razões acima que a palavra amor aparece umas seis vezes, três das quais nesta canção de crítica à banalização da palavra amor. Neste cenário perverso, sinto constrangimento em lançar mão de uma palavra que é bonita e que representa uma possibilidade de vida decente entre os seres, sinto não conseguir preenchê-la de conteúdo legítimo e evitar usá-la como camuflagem para as nossas misérias, as nossas fomes e as injustiças que se multiplicam cotidianamente.
É isso e espero que a secura acima exposta, possa um dia ser entendida como o que verdadeiramente representa a palavra amor.

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