Thiago Lacerda e o civismo mínimo
Thiago Lacerda e o civismo mínimo

Thiago Lacerda e o civismo mínimo

Por Marcelo Cavalcante

 

O problema de se misturar fama com inteligência, conhecimento ou bom senso é sintoma de falta de inteligência, de conhecimento e de bom senso. É óbvio que uma pessoa que alcança a fama (pelos motivos mais diversos e prosaicos) não é, necessariamente, inteligente, instruído ou centrado, pois que a fama é apenas um predicado externo à pessoa. Pelé foi um excepcional jogador de futebol e as pessoas se espantam quando ele profere as suas costumeiras bobagens político-morais. Muito provavelmente, não fosse o futebol e certas circunstâncias, o cidadão Edson Arantes do Nascimento hoje seria um aposentado (com o mínimo) por ter trabalhado como balconista num pé-sujo de Bauru. Numa melhor hipótese ele poderia ter sido um servente de pedreiro na capital, mas a aposentadoria não melhoraria muito. Caso uma das hipóteses tivesse se concretizado, ninguém estranharia a opinião daquele senhor aposentado, posto que é um pobre coitado, que não estudou e que, portanto, não entende muita coisa.

Nestes dias, parece que o mais forte candidato ao Febeapê (Festival de Besteiras que Assola o País) é o ator (?) Thiago Lacerda que, não pelos seus vastos conhecimentos, mas apenas pela fama, tem suas declarações ecoadas pela mídia de famosidades. Primeiro, ele acha que o Paulo Betti não pode ser irônico diante de ações políticas levadas a cabo por seus colegas de profissão. Pode, sim. Agora, o ator global acha que o Diego Silva, um jogador de futebol, não poderia, sob hipótese alguma, aceitar jogar pela seleção espanhola, em detrimento da Amarelinha. Segundo ele, o cara tem que ter uma responsabilidade cívica mínima. Nem vou perguntar ao moço o que seria uma responsabilidade cívica máxima.

Com esse pensamento ele irá ao estádio do Maracanã vaiar o traidor da pátria, um menino que vai entrar em campo para jogar futebol. A pátria de chuteiras é isso, é essa miséria intelectual. E eu que pensei que disputas futebolísticas tivessem platéias que ali vão para ver um bom espetáculo...

Não conheço a vida pregressa do jogador Diego Costa, mas acredito que seja um cidadão que veio lutando com muitas dificuldades e chegou até onde chegou pelo talento que tem com a bola e que, por motivos de foro íntimo, fez uma opção que tem relação com a sua carreira e o seu futuro. Neste fato não há nada de ilegal ou imoral.

Entretanto, não me parece que o moço global esteja tão preocupado com RESPONSABILIDADES CÍVICAS, uma vez que NUNCA o vi cobrando este civismo mínimo dos ladrões públicos do país.

Talvez, o civismo (mínimo) do senhor Lacerda seja seletivo, ou melhor, temático, e esteja adstrito às questões futebolísticas, não importanto muito as incontáveis mazelas que acontecem diuturnamente neste país de miseráveis, onde um Estado nababesco (assessorado por uma elite fútil) assiste indiferente a um exército de pessoas (cada vez maior) dormindo nas ruas e comendo as lavagens recusadas pelas pocilgas das periferias.

Com o Lacerda, aprendemos mais uma lição: futebol é assunto patriótico ao passo que saúde, educação, moradia, fome, miséria são coisas que estão aí pela realidade, ao acaso, distantes da pátria e (principalmente) dos famosos (e ricos) por coisa nenhuma.

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