Criar uma Loja Virtual Grátis
A Xuxa, o senado e as pobres crianças
A Xuxa, o senado e as pobres crianças

A Xuxa, o senado e as pobres crianças

Por Marcelo Cavalcante

 

 

No início da década de 1970 me deparei com uma prática comunicacional que me deixou estarrecido e indignado. Tratava-se de uma notícia que não era notícia, uma vez que tinha como único objetivo colocar em evidência uma determinada atriz global. Ocorre que, hoje em dia, esse fato não causa estarrecimento ou indignação, pois que foi transformado em prática corriqueira. Nada mais natural vermos publicado e/ou difundido nos meios de comunicação de massa que a atriz fulana (às vezes nem tão famosa) desceu ao play do condomínio para brincar com o seu rebento que conta duas (Alice no país das maravilhas) primaveras entupidas de fausto e consumo conspícuo. Evidentemente isto não é uma notícia, pois milhares ou milhões de mães fazem o mesmo cotidianamente.

No início do presente século, deparei com uma banca de revistas na qual dois jornais da grande imprensa estampavam (na primeira página) a notícia de que a atriz (?) Cléo Pires tinha beijado o namorado na praia. Era um verão esplendoroso com as praias do Rio de Janeiro repletas de moças, seguramente alguns milhares delas beiçaram os seus namorados, ficantes, maridos, amantes e mesmo empregados, uma vez que já temos o personal scort para amenizar determinados fogos na bacorinha.

Acredito que, hoje em dia, mais da metade das matérias veiculadas pela mídia são deste jaez, ou seja, são falsas notícias uma vez que nada mais são do que marketing disfarçado, o tal merchandising. Apesar de ser medrado numa falsa aparência (uma mentira) de que se trata de uma notícia, a mídia faz largo uso deste expediente, pois sabe que tal enganação tem o poder adicional de não se caracterizar no que é: uma peça publicitária.

A grande jogada neste me engana que eu gosto, é o farto uso da ideologia, no que diz respeito ao esvaziamento da história. Observe-se que a maioria das notícias são veiculadas sem maior senso crítico na busca de justificativas para o fato de serem ou não notícias. A falta de antecedentes históricos faz as notícias surgirem como se geração espontânea, coisas que surgiram do nada e vão para lugar nenhum, exceto para o sucesso e os lucros dos envolvidos.

Então, a mutreta se estrutura na ocupação da mídia a qualquer custo, pois esta condição garante sucesso e dividendos altíssimos, independente do que seja ou do que se reporte. Mesmo quando famosos participam de campanhas filantrópicas (emprestando suas imagens gratuitamente), amealham ganhos elevados, pois que aumentam os seus cacifes mercadológicos.

Como disse acima, a ocupação do espaço midiático a qualquer custo, mesmo em situações absolutamente patéticas, é o maior desiderato do marketing desmesurado e é nesse corolário que encontro uma explicação plausível para a presença da apresentadora (?) Xuxa no Senado Federal, como convidada de honra, durante a aprovação da Lei da Palmada.

Convidar alguém para uma sessão em que não pode se expressar, não tem direito a falar, significa exatamente o quê? A entronização de um objeto estranho e desnecessário, um penduricalho que não soma nem diminui, embora um ícone de vazia simbologia, mas que, às custas do povo, dali retira enormes dividendos.

Quais foram os parâmetros seguidos para o convite recair exatamente sobre a rainha dos baixinhos? Seguramente apenas de perfumarias, pois temos no país pessoas que dedicam anos e anos de suas vidas ao estudo sobre a questão da criança, fizeram pesquisas, publicaram livros, etc.

Por via transversa, podem os energúmenos da objetividade arguir a escolha pelo fato de a tal senhora ser apresentadora de programas infantis. Ora, por que não convidar outras que fazem e fizeram a mesmíssima coisa?

Ocorre que a argumentação para o convite não encontra respaldo numa análise objetiva, uma vez que estamos falando de uma Lei polêmica que tem como maior objetivo aprofundar a intervenção do Estado na vida privada do cidadão e não na proteção das nossas crianças. Até onde conseguiu demonstrar ao grande público, a senhora Meneghel é versada em posar para revistas de mulher pelada, namorar o Pelé, fazer filmes de péssima qualidade, escolher um garanhão para ter um filho (eugenia?), apresentar programas infantis de apelo erótico, e ser uma pessoa pública, sem necessariamente ter grandes talentos, cultura ou predicados. Em suma, o seu maior feito é ser uma marca comercial, o que a desumaniza.

Outro argumento plausível seria o de que a Xuxa é uma mãe exemplar (tendo em vista a questão dos maus tratos às crianças). Pode ser, acredito sinceramente que ame a sua Sasha, assim como as Marias, Severinas e Goretes dos rincões amam os seus rebentos. O que não se coaduna é a questão dos maus tratos. Como uma pessoa como a apresentadora poderá entender as condições exasperantes de uma vida de misérias, de privações e bestializações que criam desesperos que culminam em maus tratos? Ora, isso não justifica os maus tratos. Claro que não, mas explicam, e esta explicação a Xuxa jamais entenderá, pois a sua vida de olimpiana lhe impõe tal interdição.

Nesta irresponsabilidade institucional, restou que a Xuxa colheu o seu espaço midiático e a Lei da Palmada foi aprovada e submetida à sanção presidencial.

Quais os dividendos que a sociedade colhe com a presença da loura nesta quadra de produção de factótens? Nenhum. Como podemos observar, ela defendeu o texto aprovado e negou que a lei vá punir pais que queiram educar os filhos. “As pessoas entenderam que não se trata de querer prender quem quer educar o filho. É mostrar que se pode educar, se deve educar sem violência. Ninguém vai ser preso por dar uma palmada como estão querendo dizer. Mas talvez um dia as pessoas vão entender que nem essa palmada é necessária, que se pode conversar”.

Esta frase acima demonstra que La Meneghel estava no Senado Federal apenas por força de sua marca (no trabalho estafante de angariar mídia) e bastava afirmar qualquer “boi com abóbora” e a coisa estava sacramentada. Afirmou que “As pessoas entenderam que não se trata de querer prender quem quer educar o filho” passando a régua na polêmica que ainda está a suscitar tal Lei. Ao afirmar que “É mostrar que se pode educar, se deve educar sem violência”, não lhe ocorreu que as leis são para ser aplicadas e dificilmente educam, mas constrangem a comportamentos determinados. Nesta lógica, fechemos as escolas e universidades e acabemos com a instituição da família, em substituição façamos leis. Qual a garantia que a Xuxa nos oferece ao afirmar o estapafúrdio de que “Ninguém vai ser preso por dar uma palmada como estão querendo dizer”? Além de não entender de criança (stricto sensu) ela não entende nada da realidade deste país onde as leis são interpretadas com a maleabilidade de um chiclete na boca de um adolescente. Finalmente, como corolário ao vazio de conteúdo ela nos brinda com uma paulocoelhada de fazer inveja ao próprio, afirmando que “Mas talvez um dia as pessoas vão entender que nem essa palmada é necessária, que se pode conversar”. Estupefato, concluo que ela saiu direto da Terra do Nunca, para o tal convescote no Senado Federal. Mas não descartando a afirmação abstrata (talvez um dia), concordo, pois acredito que talvez um dia as pessoas vão entender que nem a guerra é necessária, que se pode conversar; o diabo é que não usamos isso para aprovar ou desaprovar leis que causam efeitos concretos e imediatos em toda a sociedade e nem por isso os países deixam de aumentar os seus estoques de artefatos bélicos, embalados tão somente no talvez um dia xuxeano.

Por fim, fechando o circo de horrores do dia (a cada dia temos um), a tal Lei recebeu do Senado o nome de Lei Menino Bernardo, em homenagem ao garoto morto pelo pai e pela madrasta no Rio Grande do Sul. Haja forcação de barra, uma vez que o caso hediondo recentemente ocorrido (com intensa cobertura da mídia – deve ser por isso) não tem absolutamente nenhum vínculo jurídico com o caso do menino Bernardo.

Rating: 2.5/5 (111 votos)

ONLINE
1







Total de visitas: 24271